quarta-feira, 18 de junho de 2008

O Quarto Secreto


Passara horas sentado naquela janela. Com suas mãos frias podia sentir o contraste com o quente do rosto de choro. “Porque ela tinha que ir?”, e simplesmente ficou a pensar sobre tudo. Sentia-se protegido pelos objetos do quarto mais alto. “O quarto secreto”, como gostavam de chamar, em uma fantasia que com o tempo se tornou real, assim como a infância virara puberdade; amizade, paixão.

O mar lá fora estava manso e quente. O pôr-do-sol dourado intenso pintava sua retina profundamente, tocando sua alma completamente. Em meio ao vazio e ao calor ele se entregava aos pensamentos mais confusos e perturbadores, esclarecedores e nervosos. O cada vez mais o impulsionavam a pular no grande abismo em que se encontrava.

Sua mente estava trabalhando para se lembrar dela perfeitamente. Do rosto, dos olhos claros, do cabelo, da boca, das mãos, do cheiro, do abraço, do sorriso, da risada, do jeito de falar e de ser... Queria também se lembrar da cidade como é e como foi com ela em cada lugar. A praia de areia branca, com ondas suaves. O píer e as gaivotas. Os pescadores e o eco da voz deles que vinha com o ar de longe. Lembrar como era a grande casa, fintada de cal com as janelas azuis, feita de madeira e enorme. Com pequenos esconderijos e espaços, quartos e varandas, escadas e janelas enormes pelos corredores. Estava sempre cheia de gente: a família, os amigos.

Seus pais eram amigos! Gostava de lembrar como brincaram quando crianças, na praia e na piscina, na casa da árvore. Andavam de bicicleta nas férias. Lembrou-se também como foi o inicio da adolescência, confusa e estranha. Muitas informações de uma só vez, o mundo se abrindo de maneira curiosa e assustadora. Com o tempo apenas se acostumariam com a vida como ela é. Lembrou-se da vez em que estavam no jardim e ele descobriu que gostava dela...

Sentia raiva e calor, ódio intenso. E chorava fortemente até sentir a presença dela, que vinha como calmaria em alto mar. Parava então de súbito, se esforçando para vê-la em meio ao que restava do sol, sorrindo. Como ela gostava de andar descalça e passar horas a observar as pessoas! Sempre alegre, menina iluminada! Foi ela quem o ajudou a decorar cuidadosamente o teto abobadado e baixo da torre do quarto secreto. Coberto com recortes de jornal, fotos de revistas, noticias incríveis. Cartões postais – “as pequenas janelas para nosso mundo” – placas antigas, conchas, botões coloridos. Cartas, bilhetes, dobraduras, declarações de amor, pedidos de paz, poemas sem fim...

Ele tinha a vida dela ali com ele. Tudo que fizeram estava na mente dele. Ele a amou. E mesmo sabendo que naquele exato momento todos estavam lá em baixo, em profundo luto, dividindo a mesma saudade e mesma dor, se recusava a comparecer. Ele se recusava a dividir o que havia vivido com ela! Era egoísta sim e não dividiria a intimidade deles com os outros, estava decidido. Aquelas lembranças todas, portanto, se tornariam um segredo, parte da vida dela que jamais os outros teriam. Jamais os outros iriam poder ressuscitá-la em lembranças. E ele se sentiu com um incrível – e estranho – poder nas mãos. Ele via que teria ela mais perto do que os outros. A alma dela ainda circulava radiante e às vezes o invadia por completo. O tocava no mais íntimo e secreto, alem da alma ou do coração. Compartilhava sua vida com ela.

Queria ter ela cada vez mais perto e mais intensamente. Senti-la viva mais uma vez. O calor não o afetava mais... Entardecera e o vento começou a uivar angustiante. Ele caiu em sono enquanto as estrelas brilhavam. Continuou lá quando fez sol e calor, choveu e esfriou. O mar se enfureceu e se acalmou. O vento trouxe e levou sons, visitantes, familiares, lembranças. Mas ele não podia ouvir os chamados, nem ao menos perceber o que acontecia...

A grande casa já não importava mais. O quarto secreto já não tinha mais cor. O mar silenciara e o sol não mais reluzia. Tão pouco havia noite ou estrelas. O vento morrera. O que era vida já não lhe trazia prazer. O que era morte já não lhe preocupava.

Sua alma se entrelaçara à dela, completamente. Não sabia se representava o próprio vivo ou se jazia morto sendo ela. Não conseguia mais se soltar. Não queria mais. Não queria acordar. Afinal, tudo se manteria lacrado no segredo daquele quarto, daquela torre, daquele amor, daquelas vidas.

Então, para quê acordar? Tudo permaneceria no quarto secreto como começou...


A NAVALHA

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Fantasmas

Você
Alguém que não consigo
Esquecer
Ou talvez não queira
Esquecer

È a tua silhueta
Que vejo dançar no meu copo
É teu o sorriso
Que em pensamento
Assombra-me

É o brilho
Dos teus olhos
Que vejo nas estrelas
É a tua voz que às vezes
Procuro chamando meu nome

É o teu perfume
Que sinto na gola da minha capa
É o teu nome
Que grito desesperado
Nas noites de solidão

São para você
Os poemas que faço
Usando essa folha amarela e essa pena
São para você
As musicas que compus

Queria ter forças
Para me livrar de tudo isso
Mas as lembranças
São bem mais vivas
Que qualquer coisa em mim

Queria olhar pela sacada do meu quarto
E te ver novamente
Colhendo as rosas do meu jardim
Aquelas, que agora, cuido com tanto carinho
Pois o perfume delas me lembra o teu

Tudo que queria
Era escutar teus passos
Era escutar as tabuas
Dessa velha casa
Rangendo com seu doce pisar

Tudo parece tão triste agora
As rosas que antes eram vermelhas
Agora me parecem cinza
Como se tudo tivesse perdido a graça
Perdido a beleza...

Pelas noites adentro
Sigo me embriagando
E gritando seu nome
Pedindo a Deus que você
Retorne

A brisa toca delicadamente meu rosto
Acho que é a sua respiração
Mas você não está comigo,
Lagrimas escorrem por minha face
E caio ajoelhado

A gola do casaco esconde minhas lagrimas
Sinto seu perfume
No líquido verde que está dentro da garrafa
Vejo-te dançando
Repetidas vezes grito teu nome

Ajoelhado ali, olho para os céus e vejo as estrelas
O brilho do seu olhar
Uma pétala de rosa vermelha cai a minha frente
Pego-a e nela sinto
A delicadeza do teu toque


Mas teus passos
Tua voz chamando meu nome
Eu nunca mais escutarei
São só lembranças
Que assombram minha mente

São só fantasmas...


Por Giancarlo Ferraro

terça-feira, 27 de maio de 2008

DELÍRIO

SIMPLES SEGUNDOS ENCOSTADA EM TI
E JÁ ME PERCO EM FUNDOS PENSAMENTOS,
DESEJOS, AFLIÇÕES!

E NESTES APENAS SEGUNDOS,
QUE ECOAM ETERNIDADE EM MINHA MENTE,
SOU CAPAZ DE FECHAR MEUS OLHOS,
CEDER A MINHA PROPRIA TENTAÇÃO,
DE ME DEIXAR LEVAR...

SINTO A VERDADE CAMINHAR A MINHA VOLTA,
RONDANDO MINHA AGONIA,
POR QUE NÃO A SIGO, ENFIM?

FORAM CEGOS SEGUNDOS APENAS.
O TEMPO CURTO DE IMAGINAÇÃO,
SE TORNOU A VERDADE QUE ESTOU A SEGUIR!

E ÉSTA NA MINHA MENTE,
COM SUA FORMA SEDUTORA ME AMARROU,
EM NÓS FORTES DE UMA CORDA LONGA,
(VOLTAS E VOLTAS E VOLTAS, INDO E VINDO)
NO TEU CORPO E NA TUA ALMA.

AGORA EU MESMA SOU SIMPLES IMAGINAÇÃO,
EM PURO DELIRIO ESTOU:
DE COSTAS PARA NÃO TE VER;
ENCOSTADA ETERNAMENTE A TE SENTIR...
A VERDADE A RONDAR.

Camilla Di Lucca
(p.l.f)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Jardim de Inverno




Então, mais uma vez estava eu naquele jardim, deitada ao sol ofuscante do inverno, sem nuvens no céu. De barriga para baixo, olhando para a grama, seria possível reparar nos mais incríveis detalhes do solo, onde todos pisavam. As pequeninas formigas caminhavam entre a terra, entre folhas verdes e levemente translúcidas de grama, e entre folhas secas em tons marrons e pardos. Pela grama, pequenos feixes de capim, ou ervas-daninhas, cresciam cada vez mais, querendo dominar o jardim.
Olhando novamente para o céu, com minha franja cobrindo um pouco meus olhos, eu via as árvores, grandes e majestosas sobre mim, em contraste com o céu com contornos castanho-dourados de fios de cabelo.
Estava tão quente, tão bom, tão aconchegante como se eu tivesse voltado à minha natureza de ser humano livre como realmente deveria ser! O vento passava por tudo, bem devagar, dançando com os galhos das plantas que se acariciavam produzindo rangidos e estalidos tão suaves e agradáveis...
Se eu ficasse ali, deitada, por muito tempo, acabaria virando grama ou capim, verde sempre a crescer; formiga entre as folhas secas, andando pela terra; folha das grandes árvores. Viraria parte do jardim quase para sempre, até que o vento me carregasse para algum outro
lugar...
Camilla Di Lucca
Obrigada à Vicent Van Gogh, por ter pinturas tão lindas, que se encaixam ao meu conto!
(Cima: Jardim de Inverno, rascunho de lápis sob papel)
(Baixo: ?)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Trechos de Alice no Pais das Maravilhas...





- Quando eu uso uma palavra - disse Humpty Dumpty num tom escarninho - ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique ... nem mais nem menos.
- A questão - ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
- A questão - replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso
***

- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
- Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
***
Alice: Aqui parecem todos malucos.
Gato: É verdade, eu também sou maluco…Completamente maluco.
Alice: Eu não.
Gato: Claro que és. Se não fosses maluca não estavas aqui.
***
..